Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2007

Educação infantil

Já tem algum tempo que a educação infantil vem se tornando um assunto de grande interesse para mim. Outro dia li esse post da Lu Brasil, que fez com que minha vontade de escrever sobre esse assunto aumentasse.
Uma coisa de nosso tempo que me assusta demais é a ansiedade de pais e mães em relação ao desenvolvimento dos filhos. Não sei se os pais de outros tempos eram também tão ansiosos, mas o fato é que a velocidade da informação e a absurda quantidade de estímulos a que as crianças são submetidas hoje, somadas ao que eu chamei de ansiedade, constituem uma temeridade e, na minha visão, uma ameaça ao integral desenvolvimento de nossas crianças.
Algumas coisas que ouço a respeito das escolas consideradas muito boas aqui no Rio fazem com que eu deseje que minha filha jamais estude numa delas. Me refiro a coisas do tipo: uma criança de 5 anos ler 10 livros em inglês por semana. Isso mesmo, 10 livros em uma semana. E em inglês! Ou então: uma criança de 7 anos que não tem tempo para brincar, pois sua agenda é lotada de atividades extra-curriculares, como cursos de idiomas e aulas de reforço, além das saudáveis atividades esportivas e musicais, essas últimas cada vez mais raras nos dias de hoje.
As escolas (e os pais) pretendem o que com isso? Preparar as crianças para serem CEO's de empresas no futuro? Meu marido muito bem comentou: e se em vez de executivas elas quiserem ser, sei lá, professoras de literatura?
Isso tudo sem mencionar o estímulo à competitividade que começa cada vez mais cedo - afinal de contas vivemos num mundo cada vez mais competitivo, nossos filhos precisam estar preparados...
Tenho me assustado também com as próprias crianças. Ouvi dizer que o mercado de consumo que mais cresce hoje é o de meninas antre 8 e 12 anos. Elas escolhem suas roupas em lojas de grife, frequentam salões de beleza - a última moda é fazer festa de aniversário no salão, apagar velinhas fazendo unha e cabelo junto com as amiguinhas. Ah, e todas elas (e talvez também os meninos) aos 6, 7 anos tem celular, raríssimas são as exceções. Meu Deus, que mundo é esse? Nessa idade eu gostava mesmo era de brincar, será que havia algo de errado comigo? Esses são apenas alguns exemplos do que se vê hoje, o quadro é gravíssimo.
Ainda assim, acho que nossas crianças tem salvação. E a responsabilidade não é somente das escolas e dos meios de comunicação, mas também (e principalmente) dos pais.
Tenho lido bastante a respeito de desenvolvimento e educação infantil e, nessa busca por informação, me deparei com um modelo pedagógico muito interessante mas pouco adotado no Brasil, a Pedagogia Waldorf.
Esse modelo pedagógico foi criado por Rudolf Steiner, pai da antroposofia, e tem como diretriz primeira o desenvolvimento integral do ser humano, visando assim a formação de indivíduos auto-confiantes, criativos e capazes de fazer escolhas com reponsabilidade. As escolas que adotam esse modelo priorizam, através de suas atividades, o cultivo da força interior, a interação do homem com a natureza e a superação da visão materialista do mundo contemporâneo.
Em um jardim de infância Waldorf, a principal atividade das crianças é brincar. Num ambiente acolhedor, as brincadeiras livres e com direcionamento são entremeadas com atividades de canto, dança, artes plásticas, jardinagem, culinária etc, sempre adequadas à etapa do desenvolvimento em que as crianças se encontram. A escola procura ensinar as crianças a valorizar rituais e a respeitar a natureza de forma lúdica. Tem coisa mais divertida que ajudar a fazer o pão e a plantar as frutas que são consumidas no lanche da escola? Hábitos saudáveis também são incentivados, como o consumo de alimentos saudáveis e orgânicos.
Um livro muito bonito e que traz um belo exemplo da aplicação da Pedagogia Waldorf no Brasil é A Pedagogia Waldorf - 50 anos no Brasil, realizado e editado pela Escola Waldorf Rudolf Steiner, de São Paulo, em 2006. É uma edição comemorativa belíssima, que faz com que tenhamos vontade de sair correndo para lá com nossos filhos...
Não sei se vou matricular minha filha numa escola que adote a Pedagogia Waldorf, até porque acho que são pouquíssimas as escolas Waldorf no Rio. Mas acho as idéias que esse modelo (e a antroposofia, de forma geral) prega muito interessantes. E na prática acho possível incorporá-las a nossas vidas de diversas formas. Por exemplo, é possível, mesmo antes de a criança entrar para a escola, incorporar em nossa rotina determinadas atitudes, de forma a criar em casa um ambiente "Waldorf".
Mas como fazer isso? Eu não tenho uma resposta objetiva para essa pergunta, mas estou em busca dela. Rudolf Steiner mesmo considerava a Pedagogia Waldorf algo que não se podia aprender ou discutir, mas sim praticar. A partir daí, segundo ele, experiências com sua aplicação podiam ser relatadas, caso a caso.
No meu dia-a-dia, conforme minha filha vai crescendo, tenho procurado ser crítica em relação a tudo que se nos apresenta - brinquedos, entretenimento, estilo de vida etc. - e procuro conduzir nossa rotina da forma que julgo mais adequada para nós duas. É preciso cuidado, pois muita coisa vista com naturalidade pode não ser legal, e o pior, muita coisa acaba nos sendo "enfiada goela abaixo". Também tenho procurado usar de sensibilidade (e não sempre de razão) para avaliar o que é melhor para a minha filha, pois fórmula para criar filho não existe, cada filho é um filho, cada mãe é uma mãe e, portanto, cada caso é um caso. Em última análise, acho que trata-se mais de compreender a criança (e o ser humano, de forma geral), do que adotar ações pontuais com base no modelo antroposófico ou em qualquer outro modelo teórico.

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